06 dezembro, 2016

António Costa, os entrevistadores e nós, os telespectadores (continuação)


Dormia Cristo a sono solto e, para que não acordasse, tirei o som àquela coisa. Habituado que estou a interpretar comportamentos não verbais e a discernir o significado de um olhar de esguelha, de um sorriso inexpressivo e de mãos cerradas, foi, em certo sentido, mais esclarecedor ver isso do que se tal tivesse ouvido. Curioso, curioso, foi o facto de os dois, cada um em alturas distintas, terem assumido esgares mal contidos, músculos faciais tensos, sinalizadores de contenção de raiva. 
Surpreendido por se terem a tanto atrevido, fui validar o meu entendimento com insuspeitos especialistas
Entendimento validado, tive um alerta que me recomendava cuidado e me dizia «Não é suficiente perceber que alguém sentiu raiva, o mais importante é verificar o que essa pessoa fará a partir da raiva que sente. Alguém, diante da raiva, pode controlá-la, ressignificá-la e agir de forma assertiva.»

Assertivo seria, por exemplo, um deles, explicar a Maria Luís Albuquerque que não há assim grandes diferenças entre as acusações de António Costa e as conclusões do Tribunal de Contas.   
Eu por mim espero sentado, Ele, Cristo, espera dormindo.

05 dezembro, 2016

António Costa, a entrevista e nós, os telespectadores


À hora de inicio da coisa, batem-me à porta. Era Cristo. Posso? pergunta e sem esperar resposta, entra, senta-se, pega no comando, sintoniza o canal e ajusta o som. Timidamente e nada refeito de tão inesperada e antecipada natalícia presença sentei-me a seu lado. 
A coisa começa e Cristo comenta: "Bons entrevistadores, esperemos"
Como resposta ao comentário fiquei calado
Ia a coisa para aí com uns largos minutos debatendo o tema da caixa e da sua recapitalização quando Cristo não contém um prolongado bocejo: "Sabe?, eu não sei nada de finanças..."
Ocorrendo-me o poema, um tanto despropositadamente completei-lhe a ideia "E consta que não tem nenhuma biblioteca!"
Cristo olhou-me de frente e foi directo "Os poetas gozam da impunidade dada à liberdade poética. Desse Pessoa tenho Eu a obra toda"
Estávamos nós nisto, eu e Cristo, quando André Macedo dispara uma pergunta estilo tiro ao boneco a que Costa respondeu com um sorriso na ponta da língua. 
"Cristo, estás a ver isto?"
Não estava.
Cristo tinha adormecido. Em seu regaço aberto um livro "Levitico" entreaberto numa página, onde li, brandamente, para não acordar o Senhor:
" Se teu irmão empobrecer, e as suas forças decaírem, então, sustentá-lo-ás. Como estrangeiro e peregrino ele viverá contigo. Não receberás dele juros nem usuras; teme, porém, ao teu Deus, para que teu irmão viva contigo. Não lhe darás teu dinheiro com juros, nem lhe darás alimento para receber usura”.
Pena Costa não ter tal livro em sua biblioteca.

03 dezembro, 2016

A ler, no "Tornado"