27 março, 2015

Do massacre, haverá quem se safe? Nem quem desliga se livra de os ter sempre em cima...


Não, do massacre ninguém se safa na audiência metralhada. A emissões são povoadas de "não notícias" e o total é um massacre: cerca de 12 horas de blá-blá-blá:
É a não-notícia o não ser oportuno dizer, porque os peritos vão reunir e depois é que vai ser.
É a não-notícia do livro que não chegou a ser pois não foi ele a escrever.
É a não-notícia de Portugal ir ser uma das economias mais competitivas do mundo à custa do empobrecimento que continua acontecendo.
É a não-notícia do dono disto tudo ser/não ser o culpado de tudo isto.
É a não-notícia de os culpados a incriminar serem os que foram espreitar a inocente lista (no dizer da ministra). 
A verdadeira notícia é que a mudança está atada! E essa, embora haja quem fale, é voz que de pronto se abafa.

26 março, 2015

A dona Esmeralda e a vizinha do 4º andar, a conversar - (25) [numa quinta-feira, que foi dia da rádio]

 


Vizinha do 4º andar (como se estivesse a lamentar) - Ó dona Esmeralda, o rapaz até fala bem, mas o assunto não me diz muito...
Dona Esmeralda (admirada) - Também ouvi... O assunto não lhe diz muito? Mas qual assunto? O de agora dizem uma coisa e antes quando podiam fazer aquilo que andam a dizer, diziam exactamente o contrário, e vice-versa?
Vizinha do 4º andar (com o mesmo ar) - Não, até aí entendi, e acho que ele fala bem, um chega ao poder e diz o contrário do que dizia antes de lá ter chegado... O outro faz a mesma coisa, propõe na oposição o que não quis fazer quando estava no poder. O que não entendo nem me diz muito é o outro assunto...
Dona Esmeralda (já um pouco virada) - Mas qual? Ah! mas esse é precisamente o assunto principal! Quem nomeia o Governador do Banco de Portugal é uma questão da treta, a questão que vale é quem manda a valer. O sistema só muda quando a vizinha entender!
Vizinha do 4º andar (sem se calar) - Pois, mas não entendo. E quando não entendo, desligo e digo que o assunto não é comigo!
Rogérito (interrompendo naquele momento preciso) -Pois eu ligo. Vamos lá voltar a ouvir tudo e tirar isto a limpo!

25 março, 2015

Uma tela, e o que inspira ela...


Sempre que encontro uma imagem forte ocorrem-me mais de mil palavras. E é este o caso. A pintura, obra colectiva de três pintores, fez povoar no mesmo espaço, figuras que estão associadas à marcha da humanidade, desalinhando-as no tempo. Das palavras ocorridas, recordo as não há muito lidas de António Lobo Antunes, que: Não percebo porque se perde tanto tempo a discutir o tempo, que não é nenhuma entidade metafísica, é apenas uma empresa de demolições. Pelo que entendo da bela frase, a marcha da humanidade não contém, para o autor, avanços civilizacionais ou a existirem a tal empresa de demolições (o tempo) encarrega-se de usar o camartelo e lá vai disto, tudo reduzido a pó como se o tempo tudo abalasse e destruísse. Quase como um recado: não construas, o tempo destrói.
Volto a olhar o quadro, e esqueço o reaccionário pensamento para lembrar outro, de Marx:
"Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem... a tradição de todas as gerações mortas oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos"
Excelente legenda para tão curiosa pintura.

24 março, 2015

SAPOnews, 12h01min, numa mensagem (ignorante e pateta) informava-me da morte do Poeta. Sapo parvo. Os poetas não morrem, a não ser na cabeça e nas mensagens dos não-Homens

Nota para não Escrever

Se o conhecimento é uma forma de escrita, mesmo sem palavras, uma respiração calada, a narrativa que o silêncio faz de si mesmo, então não se deve escrever, nem mesmo admitindo que fazê-lo seria o reconhecimento do conhecimento. Pode escrever-se acerca do silêncio, porque é um modo de alcançá-lo, embora impertinente. Pode também escrever-se por asfixia, porque essa não é maneira de morrer. Pode escrever-se ainda por ilusão criminal: às vezes imagina-se que uma palavra conseguirá atingir mortalmente o mundo. A alegria de um assassinato enorme é legítima, se embebeda o espírito, libertando-o da melancolia da fraternidade universal. Mas se apesar de tudo se escrever, escreva-se sempre para estar só. A escrita afasta concretamente o mundo. Não é o melhor método, mas é um. Os outros requerem uma energia espiritual que suspeita do próprio uso da escrita, como a religiosidade suspeita da religião e o demonismo da demonologia. A escrita - inferior na ordem dos actos simbólicos - concilia-se mal com a metamorfose interior - finalidade e símbolo, ela mesma, da energia espiritual. O espírito tende a transformar o espírito, e transforma-o. O resultado é misterioso. O resultado da escrita, não.
Herberto Helder, in 'Photomaton & Vox'

uma espuma de sal bateu-me alto na cabeça,
nunca mais fui o mesmo,
passei por todos os mistérios simples, e agora estou tão humano: morro,
às vezes ressuscito para fazer uma grande surpresa a mim mesmo,
eu que nunca mais me surpreendo:
sou mais rápido — (...)

Herberto Helder, extrato de que gosto in "Servidões";