José Saramago

20 Maio, 2013

Conselho de Estado. E se, por absurdo, acontecesse...


Começou há poucos minutos... e durará até às tantas

Na sua composição, o Conselho representa o centrão. Se, por absurdo, o Presidente dissolvesse o Conselho de Estado na sequência deste o ter a aconselhado a que se demitisse abrir-se-ia uma crise nesta "democracia".  Esta implodiria. Não será possível esperar isso, mas é isso o que todos os portugueses passaram a esperar. Esperam um absurdo? Claro que não, tal há-de acontecer mas não numa só reunião... Acontecerá lentamente. Se não assim, de um modo diferente... É que toda aquela gente ali reunida tende a representar apenas 10,8 % dos anseios manifestados em "que se pague a dívida", honrando os seus (deles) compromissos. Dos outros, mais de 80% querem ver a troika sair porta a fora...

Estão todos reunidos, representantes dos partidos que assinaram o "acordo", em choque com os 47,8% de portugueses que consideram que o acordo não devia ter sido assinado. É verdade que se trata apenas de uma sondagem, mas é por isso que se ouvirá na rua: "a luta continua!"

19 Maio, 2013

Geração sentada, conversando na esplanada - 32 (Gonçalo M. Tavares saberia da sondagem?)

(Ler conversa anterior)
Apenas o hipopótamo e o seu dono escaparam ao naufrágio, saltando para cima de um pequeno bote. O hipopótamo era o ganha-pão do homem e por isso quando o pequeno bote começou a inclinar-se para o lado onde estava o animal, o homem ficou preocupado com a possibilidade de este se afogar. Para evitar que a pequena embarcação se desequilibrasse completamente, o homem cortou um pedaço do hipopótamo e comeu-o, o que também era oportuno, pois começava a estar com fome. O pequeno pedaço tirado ao hipopótamo permitiu que o bote recuperasse o equilíbrio entre os dois lados, como uma balança. Mas por pouco tempo. Novamente o bote começava a ir ao fundo do lado do hipopótamo. Este, apesar do bocado que lhe fora retirado, ainda era mais pesado. O homem decidiu então comer mais um pedaço do hipopótamo. Depois de o fazer, olhou para o barco e viu que ainda não era suficiente: tirou mais um bom bocado do animal e comeu-o. O barco recuperou o equilíbrio. A viagem durou ainda algumas semanas e o homem, de seis em seis horas, via-se obrigado a cortar mais um bocado do animal. Talvez não fosse a solução perfeita, mas não poderia correr o risco de perder o hipopótamo. 
(histórias do livro O Senhor Brecht ) 
A imagem que se tem hoje nos países que estão violentamente em crise é a de que se está a comer as sementes, em vez de lhes dar tempo de crescerem. Comer as sementes significa destruir o que se tem hoje e destruir ainda a hipótese de vir a ter-se algo no futuro. E há dois tipos de pobreza - a pobreza de hoje e a pobreza de hoje que sente não poder vir a sair desse estado. A pobreza desesperada é, de longe, a mais violenta. Pobreza sem dia seguinte. Perder o tempo: nada há de mais desumano. 
Gonçalo M. Tavares, hoje, aqui

Gaby, viciada na tecnologia, nem ligava ao que se dizia...

Na esplanada, a mesa das professoras estava animada. Não apareceram nem o engenheiro nem o seu cão rafeiro, e, assim, eu refugiava-me na leitura do jornal até que um oh de admiração baralhou-me a concentração. Foi a Gaby que o dera e acenava o iPad com uma euforia que eu lhe desconhecia.
- Querem ouvir isto?
Ninguém lhe respondeu. Ia a dizer "Eu!", mas ela antecipou-se:
- Quer ler isto?, e sem que esperasse a resposta colocou-me o iPad à minha frente.
- Oh!, exclamei eu depois de ler, sem me poder conter.