25 Novembro, 2014

Poesia (uma por dia) - 72



A MULHER QUE CHORA BAIXINHO

A mulher que chora baixinho
Entre o ruído da multidão em vivas…
O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito,
Cheio de individualidade para quem repara…
O arcanjo isolado, escultura numa catedral,
Syringe fugindo aos braços estendidos de Pan,
Tudo isto tende para o mesmo centro,
Busca encontrar-se e fundir-se
Na minha alma.
Eu adoro as coisas
E o meu coração é um albergue aberto toda a noite.
Tenho pela vida um interesse ávido
Que busca compreende-la sentindo-a muito.
Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo,
Aos homens e às pedras, às almas e às maquinas,
Para aumentar com isso a minha personalidade.
Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio
E a minha ambição era trazer o universo ao colo
Como uma criança a quem a ama beija.

Álvaro de Campos

24 Novembro, 2014

O Público, o "sexagenário metalúrgico" e um partido que não carece de ser regenerado...

Público, em Espanha. Esperava o quê? 


Bem podia o artigo explicar algumas razões do que lá foi escrito.
Designadamente isto, dito ontem, pelo tal "sexagenário metalúrgico":
"Nós temos uma proposta de política alternativa inseparável de uma alternativa política capaz de a construir e concretizar, valorizando a luta dos trabalhadores e do nosso povo e apelando à convergência de democratas e patriotas, consideramos que só o reforço do PCP pode ser o pilar da política alternativa. Partido de luta e proposta, partido sério com uma só cara que honra sempre a palavra dada. O que dizemos neste salão é o mesmo que dissemos na Assembleia da República e em todo o lado. Temos um projecto, temos um ideal e temos uma forma diferente de estar na política porque nós, Partido Comunista Português, estamos aqui para servir os interesses do povo e do país e não para nos servimos a nós próprios. Partido que está em condições de assumir as responsabilidades que o povo português lhe entenda atribuir, incluindo responsabilidades governativas. Partido que com o seu projecto e o seu ideal assume-se como portador da esperança por uma vida melhor num país mais desenvolvido e progressista".

23 Novembro, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 76 (no limiar do Estado de Corrupção Geral)

(ler conversa anterior)
«Veio enfim um tempo em que tudo o que os homens tinham olhado como inalienável se tornou objecto de troca, de tráfico, e podia alienar-se. É o tempo em que as próprias coisas que até então eram comunicadas, mas nunca trocadas; dadas, mas nunca vendidas; adquiridas, mas nunca compradas - virtude, amor, opinião, ciência, consciência, etc. - em que tudo enfim passou para o comércio. É o tempo da corrupção geral, da venalidade universal"»
Karl Marx, in "Miséria da Filosofia", 1847

«João Cravinho não esconde a sua desilusão. Autor de um pacote legislativo que deixou no Parlamento antes de ir para Londres para a direcção do Banco Europeu para a Reconstrução e Desenvolvimento, viu as suas propostas serem rejeitadas pela sua própria bancada, a do PS.»
Rogério Pereira, In "Reconstituíndo um post roubado...", 2011

«Recusamos comentários com componente de julgamento»
Jerónimo de Sousa, ontem in "Notícias ao Minuto"
 


Estávamos, eu, o velho engenheiro e o seu cão rafeiro, abrigados no alpendre. Chovia copiosamente. As nuvens negras eram dissuasoras de promessas de sol e já tínhamos desistido de nos sentar a conversar. Falávamos ali, de pé e sem desgrudar, como quem cumpre o ritual de rever as notícias da semana. Quando lhe disse o que pensava escrever, ele fez um silêncio prolongado, para depois comentar: "Citar Marx, Cravinho e Jerónimo?, faz sentido. Está tudo ligado". Depois, referindo-se ao post de ontem "Sabe?, uma televisão assim, ajuda muito. Ao seu post sem nome bem podia dar o título No limiar da Corrupção Geral. É com a destruição dos valores da educação, que a corrupção grassa e se instala"...