30 Julho, 2014

"Rosa Sangue" ou até onde pode ir a emoção. A deles e a minha.



Partilho esta sala com toda a gente. Ela, quem chega e quase não dou pela chegada. A televisão está quase sempre ligada. Quando em quando, entre um e outro comentário ou montagem de um post, interrompo, cumprimento, ou dou atenção ao momento e logo me deixo absorver pelas tarefas avinagradas, por este redescobrir, na espuma de todos os dias, algo que o não seja. 

Assim, não fui ter com eles. Eles é que romperam a minha concentração e me sacudiram, num abanão de emoções. Não tenho a certeza se a canção era boa ou não. Não deu para perceber se o poema era belo de morrer, ou se a sua teatralização tinha erros de enquadramento, perspectiva ou iluminação. Não sei tudo isso. Mas ficou-me a emoção da verdade de uma entrega, total, plena. E isso é mais que mero entretenimento. É arte. 
Ganharam os três em cena. Ganhei eu. Valeu a pena.

29 Julho, 2014

Gaza: se há coisas que podemos fazer, façamo-las

UM SONETO POR GAZA

Por cada pequenino assassinado,
Por cada ferida aberta e cada grito
De um povo dia a dia dizimado,
Encurralado, exposto, exangue, aflito,

Por cada obus de fogo ali lançado
Por loucos prepotentes de olho fito
Na criança inocente e sem pecado
Gerada pela carne e não no mito,

Para que o genocida pare enfim
De chacinar sem dó, de destruir
O abrigo improvisado em cada casa,

Um soneto, mais um, vindo de mim
Para quem, dentre vós, possa "sentir"
Cada grito de horror que ecoa em Gaza...
Maria João Brito de Sousa - 28.07.2014

28 Julho, 2014

Diário de um eleito (10)

Nem confirmei se estaria e fui. Julguei dever estar pois tinha defendido que Caxias devia continuar a merecer o que já fora. O Presidente da Junta não teve dificuldade em me dar a tarefa, pois das cinco forças políticas eleitas apenas três se fizeram representar. Indicou-me a bandeira do Município e, ao meu lado, ela ia-me explicando como a içar sem a corda se enrolar. O vento estava fraco e o povo ausente. E enquanto as bandeiras se iam içando ao som de um hino desafinado por pouco mais de uma dezena de vozes eu ia pensando no significado daquilo. Como hastear uma bandeira na ausência de povo? Senti por momentos que fazia parte de uma encenação sem sentido...  Dias depois, ontem, no Convento da Cartuxa, noutra cerimónia assinalando a mesma data, os jograis deram a resposta ao sem sentido de tudo aquilo. Inadvertidamente (?) recitavam Sophia
Camões e a tença
Irás ao paço. Irás pedir que a tença
Seja paga na data combinada.
Este país te mata lentamente
País que tu chamaste e não responde
País que tu nomeias e não nasce.

Em tua perdição se conjuraram
Calúnias desamor inveja ardente
E sempre os inimigos sobejaram
A quem ousou ser mais que a outra gente.

E aqueles que invoscaste não te viram
Porque estavam curvados e dobrados
Pela paciência cuja mão de cinza
Tinha apagado os olhos no seu rosto.

Irás ao paço irás pacientemente
Pois não te pedem canto mas paciência.

Este país te mata lentamente.

 Sophia de Mello Breyner Andresen

27 Julho, 2014

Geração sentada, conversando na esplanada - 70 (Passos Coelho também está a "governar com maioria absoluta")

(ler conversa anterior) 
«O PS pretende governar com maioria absoluta porque é necessário estabilidade para fazer a mudança que é necessária em Portugal» - António Costa, ontem

«A frase do candidato socialista deixa transparecer que está por quase tudo no que toca a entendimentos pós--eleitorais - excetuando com "este" PSD (mas se for com "outro" PSD isso já não será assim, conforme o próprio aliás já admitiu).» - Editorial do DN, hoje 

"Olá!", dissemos quase em uníssono e  com um parecido sorriso. Temos rostos muito diferentes e, por isso, o sorriso apenas é parecido no sentimento sentido. Sorriso aberto, franco, sério. Isso, um sorriso sério. O velho engenheiro, percebi, vinha com uma "agenda" carregada pois desatou, sem se conter, a fazer uma churrada de questões a que não soube responder. Até que resolveu entrar por outra toada: a de fazer afirmações à espera das minhas confirmações.
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado a falar da dívida, que não deixou de aumentar!"
- "Bom, ao certo não sabemos se falou ou não..."
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado em falar da renegociação da dívida, os juros estão a comer o pouco que temos vindo a crescer!"
- "Bom, ao certo não sabemos se falou ou não..."
- "Cá para mim, é significativo que ele se tenha furtado a falar do que o Presidente Sampaio disse, antes da Convenção!"
Nesta altura, parei e não pude deixar de interrogar: "Sampaio, disse? O que é que Sampaio disse?"
- "Bom, de certo António Costa disso não falou, logo se saberia!"
Ele ficou a comentar o que a imprensa diz e pensa. Entretanto, o rafeiro, talvez intimidado pelo acto ousado que tivera, na última "conversa", em saltar para cima mesa, desta vez esgueirou-se para debaixo dela. Pachorrento, ia acompanhando o diálogo com uma atenção quase humana. É por isso que eu gosto de cães...